Resumo da transmissão do projeto no Youtube AgroMaisAção
Acesse em: https://www.youtube.com/watch?v=hzEcKIpl6NY
Entre pecuaristas, uma frase aparece com frequência: “fazenda de cria só dá dinheiro quando o bezerro está caro.”
A lógica parece simples: se a principal receita da fazenda vem da venda de bezerros, o lucro dependeria diretamente do preço deles. Mas, quando analisamos propriedades bem geridas, percebemos que essa ideia não se sustenta.
A pecuária de corte é marcada por ciclos inevitáveis. Existem momentos de forte valorização do bezerro e períodos de mercado mais apertado. O produtor que depende apenas dessas fases de alta costuma ter resultados instáveis. Já as fazendas mais eficientes trabalham de outra forma: estruturam o sistema para ganhar dinheiro na alta e proteger a margem na baixa.
A realidade do sistema de cria
Quando comparado com sistemas de recria e engorda, o sistema de cria normalmente apresenta algumas limitações naturais. A produção de arrobas por hectare é menor, o giro de capital é mais lento e o desfrute do rebanho tende a ser mais baixo.
Isso acontece porque a cria trabalha com um ciclo biológico longo. A vaca precisa emprenhar, gestar por aproximadamente nove meses, parir e criar o bezerro até a desmama. É um processo que exige tempo.
Mesmo assim, dados de propriedades de alto desempenho mostram algo interessante: fazendas de cria bem conduzidas apresentam margens operacionais muito próximas das melhores fazendas de recria e engorda, ficando cerca de 10% abaixo apenas no resultado financeiro global.
Ou seja, a cria pode ser altamente lucrativa. A diferença está na forma como o sistema é gerido.

Onde começa o resultado: estratégia de faturamento
Em um rebanho estabilizado, aproximadamente metade dos nascimentos será de machos e metade de fêmeas. Os machos normalmente são vendidos na desmama, mas o destino das fêmeas pode mudar completamente o faturamento da fazenda.
Em muitos sistemas tradicionais, as bezerras são vendidas jovens, frequentemente entre R$ 2.000 e R$ 2.500. Já nas fazendas mais lucrativas, parte dessas fêmeas é retida, permitindo que o faturamento se concentre em vacas de descarte bem acabadas.
Uma vaca gorda pode atingir valores entre R$ 4.000 e R$ 5.000, dependendo do mercado. Na prática, isso significa que a fazenda passa a capturar mais valor dentro do próprio sistema.
Outro ponto fundamental nesse processo é a genética. O uso de touros melhoradores impacta diretamente no peso à desmama, na fertilidade do rebanho e na qualidade dos bezerros produzidos. Pequenos ganhos individuais, quando somados ao longo dos anos, geram um impacto econômico significativo.
Eficiência operacional faz toda a diferença
Se a estratégia define o caminho, é a operação diária que garante o resultado.
Alguns pontos de manejo são determinantes para o desempenho do sistema de cria. Um deles é o ajuste correto da taxa de lotação. A quantidade de animais precisa acompanhar a capacidade de suporte das pastagens ao longo do ano. Manter excesso de gado no final das águas pode levar à degradação do pasto e à perda de condição corporal das vacas, afetando diretamente a fertilidade e o desempenho dos bezerros.
Outro fator importante é alinhar a estação de monta com o ciclo de produção do capim. Quando o pico de lactação das vacas coincide com o período de maior oferta de forragem, a vaca mantém melhor condição corporal e as taxas de prenhez aumentam.
Ferramentas de manejo também podem ajudar a melhorar o resultado econômico do sistema. A desmama precoce, por exemplo, pode ser utilizada de forma estratégica em vacas vazias no final das águas. Ao interromper a produção de leite, essas vacas recuperam peso rapidamente e podem ser vendidas bem acabadas ainda no primeiro semestre, aumentando o faturamento da fazenda.
A nutrição direcionada também tem papel importante, principalmente no desenvolvimento das bezerras. Fêmeas bem suplementadas após a desmama atingem peso reprodutivo mais cedo e entram mais jovens no rebanho produtivo, aumentando a produtividade ao longo da vida.
O papel da gestão de custos
Quando se fala em custos, muitos produtores pensam imediatamente em cortar despesas. Mas, em grande parte das fazendas, o verdadeiro desafio não é gastar menos — é produzir mais com a estrutura existente.
Propriedades muito extensivas, com taxas de lotação baixas, frequentemente têm dificuldade para fechar a conta. A fazenda possui curral, cercas, máquinas e mão de obra, mas poucos animais para pagar por essa estrutura.
Nesses casos, a solução geralmente passa por melhorar a produtividade das pastagens. Recuperar áreas degradadas, corrigir o solo e aprimorar o manejo do pasto permitem aumentar a taxa de lotação e colocar mais animais na mesma área. Assim, os custos fixos são diluídos e o custo por cabeça diminui de forma saudável.
Conclusão
A ideia de que fazenda de cria só dá lucro quando o bezerro está caro ainda é bastante comum, mas não reflete a realidade das propriedades mais eficientes.
Fazendas de cria que apresentam resultados consistentes normalmente têm algo em comum: planejamento de faturamento, manejo eficiente do rebanho e gestão produtiva bem estruturada. Quando esses fatores estão alinhados, o sistema deixa de depender exclusivamente das oscilações do mercado.
No fim das contas, o preço do bezerro influencia o resultado, mas é a gestão da fazenda que realmente define a lucratividade do negócio.

Deixe um comentário