O Besouro que Vale Ouro: Como o Rolabosta Transforma a Fertilidade e a Saúde do Seu Pasto

Resumo da transmissão do projeto no Youtube AgroMaisAção
Acesse em: https://www.youtube.com/watch?v=KQNPOHXmVmg&t=2s

Você já parou para observar o que acontece com o esterco do seu gado logo após ser depositado no pasto? Para muitos produtores, o bolo fecal é visto apenas como um descarte, mas a verdade é que ele é o centro de um trabalho ecológico invisível que vale ouro para a pecuária.

No artigo de hoje do Pasto com Ciência, vamos explorar o papel dos besouros rolabostas e entender como esses pequenos aliados aumentam a produtividade da pastagem, diminuem parasitas e geram economia real para a fazenda.

  1. Os Serviços Ecológicos que Acontecem de Graça no Pasto

Na pecuária, é comum investir muito tempo e recursos na nutrição do rebanho e na saúde da microbiota do rúmen. No entanto, manter a saúde da biota externa (o ecossistema do solo e da pastagem) é igualmente essencial para o sistema produtivo. Os besouros rolabostas prestam serviços ecossistêmicos indispensáveis:

  • Ciclagem de Nutrientes: Ao enterrar o esterco fresco, os besouros incorporam nitrogênio, fósforo e potássio (NPK) diretamente nas camadas do solo. Apenas o valor financeiro da reciclagem desses nutrientes presentes nas fezes e na urina pode superar o resultado financeiro anual de diversas fazendas.
  • Descompactação e Aeração do Solo: As galerias abertas pelos besouros funcionam como um serviço natural de aragem e subsolagem. Esses canais quebram a compactação, aumentam a infiltração de água de chuva e expandem o espaço para o crescimento das raízes do capim.
  • Controle Biológico de Parasitas: Ao acelerar a quebra e o enterrio do esterco, os besouros eliminam o ambiente onde se multiplicariam larvas de vermes gastrintestinais e ovos da mosca-do-chifre.
  1. Nem Todo Rolabosta Trabalha da Mesma Forma

No Brasil, existem cerca de 800 a 1.000 espécies de besouros rolabostas, das quais entre 50 e 60 estão ativamente adaptadas ao manejo de fezes bovinas nas pastagens.

Essas espécies atuam em diferentes grupos funcionais, cada um com um papel específico:

  1. Roladores (rolabostas verdadeiros): Moldam o esterco em pequenas esferas e as rolam para longe da massa fecal, espalhando os nutrientes ao redor.
  2. Cavadores: Escavam túneis diretamente abaixo do esterco fresco para enterrá-lo. Diferentes espécies atingem profundidades distintas, variando de 2 cm até 1,20 metro de profundidade.
  3. Desagregadores: Atuam na parte interna e superficial do bolo fecal, desestruturando a massa fecal.

O perigo da monocultura de insetos

Na década de 1980, a espécie africana Digitonthophagus gazella foi introduzida no Brasil para combater a mosca-do-chifre. Como ela se reproduz mais rápido, acabou dominando muitas áreas e reduzindo as populações de espécies nativas. Contudo, essa espécie africana cavou túneis padronizados a apenas 20–25 cm de profundidade. Quando preservamos a variedade de espécies nativas, garantimos uma descompactação e distribuição de nutrientes em múltiplos níveis do perfil do solo.

  1. Como Proteger e Multiplicar os Besouros na Fazenda

Nas últimas décadas, a presença dos rolabostas tornou-se rara em muitas propriedades devido ao uso contínuo de certos antiparasitários de amplo espectro (como as ivermectinas). Como os nematódeos e os insetos compartilham rotas fisiológicas semelhantes, resíduos de vermífugos nas fezes matam ou esterilizam os besouros.

Para permitir a recuperação desses insetos na propriedade, a pesquisa recomenda algumas práticas fundamentais:

  • Manejo Sanitário Estratégico: Não é necessário eliminar os vermífugos, mas sim fazer um uso racional: rotacionar bases farmacológicas, tratar os animais em momentos adequados e respeitar os períodos de carência.
  • Pastejo Rotacionado como Aliado: Aplicar tratamentos quando o gado estiver em piquetes específicos permite que outros piquetes permaneçam livres de resíduos químicos.
  • Preservação de Reservas e Matas Ciliares: Fragmentos de vegetação nativa funcionam como abrigo e “banco de reserva” de onde os besouros nativos se dispersam para repovoar os pastos.
  1. Paciência: O Resultado Vem no Médio e Longo Prazo

Diferente de outras pragas agrícolas, os besouros rolabostas possuem uma taxa de reprodução muito baixa. Uma fêmea produz um ovo de cada vez, gerando apenas de 4 a 8 larvas por ano por casal. Além disso, os adultos vivem por vários anos e passam por múltiplos ciclos reprodutivos.

Por isso, reverter o quadro e recuperar a população na fazenda não acontece da noite para o dia — trata-se de um trabalho de médio a longo prazo que pode levar de 7 a 8 anos de manejo consistente. Comprar “mudas” ou matrizes de besouros não funciona se o manejo químico continuar envenenando o esterco.

Quando damos as condições para os besouros trabalharem, a biologia do solo responde com maior fertilidade, solos mais estruturados e pastagens mais produtivas.

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