Resumo da transmissão do projeto no Youtube AgroMaisAção
Acesse em: https://www.youtube.com/watch?v=Lo6u25AND6Q
A ocorrência de eventos climáticos extremos e as oscilações provocadas pelo fenômeno El Niño trazem desafios frequentes para a pecuária brasileira. Anos com secas severas, temperaturas acima da média e atraso no retorno das chuvas testam a capacidade de suporte das pastagens e a saúde financeira das propriedades rurais.
O consultor Mário recebeu o pesquisador Sérgio Raposo, da Embrapa Pecuária Sudeste, para discutir como a gestão de riscos climáticos deve ser incorporada à rotina de planejamento da fazenda.
O debate teve como base a nota técnica lançada pela Embrapa, intitulada “163 medidas para a gestão de riscos climáticos na agropecuária brasileira”, formulada por um grupo de cientistas para orientar produtores diante de cenários atípicos.
Abaixo, resumimos as principais orientações práticas e táticas para preparar a sua operação pecuária contra os impactos do clima.
- O Documento da Embrapa: 163 Medidas para Enfrentar o El Niño
A nota técnica da Embrapa foi elaborada a partir da provocação de um grupo de trabalho do Governo Federal para reunir recomendações científicas aplicáveis a diversas culturas agrícolas e à pecuária.
- Anomalias de Temperatura: O estudo alertou para a ocorrência de um “El Niño muito forte”, com projeções de anomalias de temperatura que poderiam atingir entre +2 °C e +4 °C acima das médias históricas em determinados períodos.
- Evapotranspiração Elevada: Altas temperaturas aumentam a perda de água do solo e da planta por evapotranspiração, o que pode paralisar o crescimento dos pastos mesmo em locais onde o volume total de chuva se mantém próximo da média.
- Variabilidade Regional: Enquanto o Sul do país pode enfrentar excesso de chuvas e ondas de frio, o Norte e o Centro-Oeste tendem a sofrer com secas mais intensas e prolongadas.
- Foco na Antecipação: A principal mensagem do documento é a necessidade de o produtor agir com antecipação, adotando medidas preventivas antes que a crise climática se instale.
- Clima Não Se Controla, Mas a Fazenda Sim: Gestão de Riscos como Processo
Um dos pontos altos do debate é a distinção entre o ambiente externo e a operação interna. Embora o pecuarista não possa interferir na ocorrência de chuvas ou na temperatura, ele tem total controle sobre o planejamento da sua propriedade.
- Tendência de Secas Mais Severas: Levantamentos climáticos das últimas décadas indicam que o período seco no Brasil Central tem se tornado progressivamente mais extenso e rigoroso.
- Planejamento de Cenários (Planos B, C e D): A gestão de riscos climáticos não deve ser lembrada apenas durante a crise, mas sim integrada ao planejamento anual da fazenda, estabelecendo alternativas claras para cenários otimistas e pessimistas.
- Orçamento Forrageiro: É indispensável refazer periodicamente o planejamento alimentar do rebanho, calculando exatamente a demanda por categoria animal e a oferta de alimento disponível ao longo do ano.
- A Importância Estratégica da Suplementação Volumosa Própria
Durante estiagens severas, a primeira reação de muitos produtores é recorrer à compra emergencial de concentrados no mercado. No entanto, essa prática esbarra em sérios gargalos econômicos:
- Especulação e Alta de Preços: Quando a seca se intensifica regionalmente, a procura por grãos e farelos dispara simultaneamente, elevando os custos do concentrado e reduzindo a sua disponibilidade.
- Autonomia na Fazenda: Ter uma reserva de volumoso próprio dentro da propriedade — seja através de silagem de capim, silagem de milho, sorgo ou capineiras — reduz a dependência de insumos externos e protege o fluxo de caixa.
- Uso Adequado por Categoria: O fornecimento de volumoso conservado é a melhor alternativa para manter a condição corporal das categorias em crescimento e recria, reservando dietas de alto concentrado para lotes em terminação.
- Prevenção de Incêndios e Proteção na Brotação
A combinação de temperaturas elevadas e vegetação seca aumenta significativamente o risco de queimadas nas propriedades. Para mitigar esses danos, a Embrapa sugere integrar a produção de alimentos à prevenção de incêndios:
- Criação de Aceiros Produtivos: Plantar áreas de volumoso (como capineiras ou milho) nas divisas mais expostas ao risco de fogo e colhê-las antes do pico da seca reduz a matéria seca combustível, funcionando como uma barreira natural contra a propagação das chamas.
- Sequestro de Animais na Brotação: Caso a fazenda disponha de volumoso em estoque, conter os animais temporariamente em currais no início das chuvas evita que o rebanho devore os primeiros brotos do capim, garantindo que a pastagem recupere suas raízes e sua área foliar para o restante da safra.
- Decisões Táticas: Descarte Estratégico e Aquisição de Insumos
Diante de previsões climáticas desfavoráveis, a tomada de decisão deve ser rápida para evitar prejuízos acumulados:
- Descarte Estratégico de Matrizes: Em momentos de escassez alimentar, vale a pena identificar e descartar precocemente as vacas com pior desempenho produtivo ou reprodutivo, garantindo alimento e escore corporal adequado para as melhores matrizes do rebanho.
- Compra Planejada de Ração: Em regiões com forte indicativo de seca, a aquisição antecipada de suplementos — desde que armazenados em local seco e seguro — evita a compra por preços abusivos no auge da estiagem.

Conclusão
Enfrentar as incertezas climáticas e as oscilações do El Niño exige profissionalismo e capacidade de adaptação. A fazenda do futuro é aquela que transforma o risco em planejamento, garantindo reservas forrageiras, protegendo o solo e ajustando a lotação do rebanho para produzir com rentabilidade em qualquer estação do ano.

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